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‘Política não é carreira’, diz Marcio Pochmann

Considerado um técnico distante da imagem de esquerda radical que acompanhou lideranças petistas por muitos anos, o economista Marcio Pochmann disputa a Prefeitura de Campinas pela segunda vez. E garante: será a última.

Diz que não quer transformar a política numa carreira e que, se não for eleito desta vez, vai voltar à academia como vinha fazendo até agora.
Pochmann demonstra certa irritação ao responder a uma crítica recorrente: a de ser ausente dos problemas da cidade.

“Olha, eu me candidatei porque entendo que política não deve ser uma profissão. Sou um cidadão que tenho a vida normal, como os demais. Me candidatei em 2012 e voltei a lecionar como faço há 27 anos”, responde. “Hoje a política virou carreira”, acrescenta.

Diz que não vai querer receber salário de prefeito e promete não transformar a Câmara numa extensão do Executivo. O candidato diz que quer reduzir o abismo existente entre a qualidade dos serviços disponíveis na região central e aqueles oferecidos na periferia da cidade. Afirma ainda que se esse modelo não for alterado, a cidade corre o risco de ver os distritos do Campo Grande e do Ouro Verde, em breve, se transformarem em municípios.

Pochmann garante ter disposição e equipe para enfrentar os principais problemas, mas sabe que terá de carregar um fardo: a combalida imagem do PT no cenário nacional e em Campinas por causa das denúncias de corrupção.

Veja abaixo como ele pretende enfrentar esse e outros problemas, na última entrevista da série realizada pelo Metro Jornal com os candidatos à Prefeitura de Campinas.

A rejeição ao PT aumentou muito em relação a 2012, quando o senhor também concorreu. O partido se transformou em um fardo?
Estamos num momento em que o sistema político partidário vive um grande descrédito. Todos os partidos perderam importância relativa. Nós temos, no caso de Campinas, cerca de 80% das pessoas que indicam votar no candidato, independentemente do partido.

O PT terá uma posição secundária na sua campanha?
Vamos fazer uma campanha orientada para os problemas da cidade e sobretudo para soluções dos problemas que as pessoas esperam resolver.

Mas existe uma rejeição muito grande. Qual a estratégia de enfrentamento?
A rejeição é do sistema político partidário como um todo, sendo que o PT é o partido que menos tem rejeição em relação aos outros. Embora se queira focar no PT, esse problema é generalizado.

Sair com chapa pura foi opção ou indício de isolamento do PT?
Analisando a história do PT em Campinas, essa eleição, no caso do PT, deve ser comparado não com 2012 ou 2008, mas com 2000, 2004, 2008 e 2012. Eram situações que éramos o governo, porque éramos coligação e tivemos vice no mandato do Hélio. Em 2004, o PT era governo e foi candidato ficando em terceiro lugar, nem foi para o segundo turno. Em 2008, embora não tenha feito parte da coligação do Hélio, terminou se agregando ao primeiro mandato do Hélio e, em 2008, tínhamos a candidatura a vice. Nenhuma dessas eleições se compara a esta.

A última gestão do PT em Campinas, que foi do Toninho e da Izalene, terminou muito mal avaliada.

Diria que metade da população que vai participar da votação este ano não se lembra disso e não tinha idade para participar do processo eleitoral na época. Começamos nossa pré-campanha fazendo essa pesquisa para provocar um debate com a sociedade e fazer um diagnóstico. No debate, o que vem surpreendentemente para nós é a indicação que a população está preocupada com os seus problemas, quer soluções, e sabemos como vamos responder a isso, então essa é a ideia, ouvir para governar.

Muitas das críticas que se ouve é que após a eleição o senhor se torna ausente na cidade…

Duas razões principais me levaram a submeter meu nome ao partido para ser candidato do PT. A primeira é o esgotamento do padrão polarizado de fazer política, que a sociedade hoje vê com grande descrédito na medida que você tem carreiras de políticos. A política virou uma carreira, temos políticos profissionais hoje. E essa pergunta que se faz, do por quê não estou aí no dia a dia na cidade. Olha, eu me candidatei porque entendo que política não deve ser uma profissão. Sou um
cidadão que tenho a vida normal, como os demais. Me candidatei em 2012 e voltei a lecionar como faço há 27 anos na cidade. Minha candidatura não é de mim mesmo, e sim de um projeto. Não sou um político tradicional. Sou um candidato diferente.

Qual seria a segunda razão?
A segunda razão está associada à saturação do modelo de administração pública da nossa cidade, que foi reproduzida ao longo do tempo através da dualidade entre centro e periferia. Isso vem desde o século 18, quando surge Campinas, que chegou a ter 1.726 quilômetros quadrados e hoje tem muito menos. A cidade foi perdendo suas partes, porque esse modelo de centro-periferia fez com que no centro ficasse localizado o que há de melhor do ponto de vista dos equipamentos públicos enquanto na periferia, cada vez mais distante do centro, se vive em condições mais precárias, gastando cada vez mais tempo para chegar ao local de trabalho. A cidade permite mais de um centro, serviços públicos em novas centralidades. Por exemplo, temos 27 cartórios na cidade e 23 estão no centro. Na região sul tem apenas um cartório e lá é a região com mais população em termos de número de pessoas concentradas. A maior porcentagem das agências bancárias também está no centro. Isso é um modelo que custa muito.

Como a administração faria essa descentralização?

Não significa simplesmente tirar do centro e levar para as regiões. Na verdade significa dar condições de centralidade. Queremos uma descentralização das atividades econômicas de emprego. Em grande medida, os shopping centers fizeram isso: saíram do centro. O setor público não acompanhou. Segundo, uma mudança no sistema de transportes, que seria o sistema de transporte transversal, em vez do radial que temos hoje. A terceira iniciativa seria a construção dos Centros Integrados de Cidadania, ou seja, levar aquilo que temos hoje no centro às periferias, às novas centralidades.

Como seria essa nova centralidade?
Em grande medida, a iniciativa privada já fez sua parte, já saiu do centro da cidade, mas com o atual modelo estamos caminhando para a cidade perder quase um terço da sua área física porque há um enorme descontentamento com a administração atual até em função do descaso com várias regiões. Não tenho dúvidas de que se não mudarmos o modelo da cidade, em breve teremos novos municípios nas regiões do Campo Grande e Ouro Verde.

O contrato do transporte coletivo em vigor hoje foi considerado irregular pelo TCE.
De imediato cumpriremos a legislação, mas haverá um grande debate com a cidade para ver como poderíamos reorganizar o sistema de transporte.

Com relação à saúde, o senhor mexeria?
A cidade já compromete uma parcela importante, do ponto de vista orçamentário, com educação e saúde, embora tem uma parcela que o estado de São Paulo deveria cumprir e não cumpre. Vamos, em primeiro lugar, colocar a prefeitura para funcionar. Não criar novas coisas sem antes colocar para funcionar as unidades básicas de saúde. Além disso, estamos trabalhando com um modelo de gestão, que denominamos “Matricial”. Por exemplo, no caso da educação, segurança, limpeza e alimentação – são funções que exigem em quase toda atividade. São atividades-meio, comuns. A ideia da matricialidade é: aquilo que é comum para todas não pode ser responsabilidade da política setorial, ou seja, há uma matricialidade. A cidade no início dos anos 2000 era referência em saúde e bons resultados. Nos últimos dois anos quase a metade da população teve dengue por ineficiência da prefeitura. O sistema de transporte que tínhamos, a educação – hoje essa educação gasta 25% do orçamento e atinge menos de 15% dos alunos do ensino fundamental. Há um retrocesso. Precisamos trazer Campinas para o século 21.

Como o senhor vai trabalhar com os comissionados?
Na administração do Toninho, eram 235 comissionados, hoje são 606 na administração direta, sem contar com Emdec ou Sanasa, por exemplo. Houve um aumento e eu não encontro razões para isso. A não ser a reprodução do modelo político em que o prefeito constitui a governabilidade, de um lado aumentando os gastos em propaganda, e de outra facilitando a vida dos vereadores.

Como o senhor espera ter base na Câmara?
Uma coisa é o poder legislativo, outra é o Executivo. O que temos hoje é uma mistura, em que o legislativo invade o executivo e pratica um “toma-lá, dá-cá”. Isso é muito ruim para a cidade. A política verdadeira exige oposição, crítica, debate, e não há problema nisso. Estamos vivendo um momento espetacular para mudar a política. Acredito nisso. Se fosse para manter o que já está aí, é melhor que os que fiquem governam. O que faço aqui? Tenho 54 anos, sou professor titular da universidade, tive várias experiências e quero doar um tempo da minha vida para uma cidade que amo e que me acolheu. Se não der para fazer isso, que seja feita a política tradicional. Esta é a última vez que serei candidato, salvo se houver reeleição. Quero dizer também que se caso vier a ser eleito, não receberei salário da prefeitura. Sou funcionário da Unicamp, já tenho remuneração, e eu não acredito que a política tenha que ser uma carreira, uma profissão.

Com relação à educação, que tipo de mudança faria?

Há quatro anos, tínhamos um deficit estimado de 4,5 mil crianças fora da creche. Hoje, temos mais de 7 mil. Essa é uma questão fundamental: baixa capacidade da administração pública atender à creche. Nossa perspectiva é do ensino integral e integrado, temos uma proposta de construção de creche para todas as crianças, queremos trazer a experiência do CEU (Centro de Ensino Unificado) e queremos construir uma universidade municipal.

Há possibilidade de ampliação na arrecadação local?
Estimamos que a administração atual vai deixar de R$ 800 milhões a R$ 1 bilhão em déficit. Depois das eleições, a cidade vai parar. Há uma série de contratos que não estão sendo pagos.

O senhor acha que isso é só responsabilidade do governo atual? Não tem influência de crise externa?

Nós temos um problema de recessão em todas as unidades federativas. Campinas não está isolada disso. Precisamos fazer uma administração olhando para esses problemas. Ao final de 2014, já se sabia que haveria uma recessão de alguns anos, e obviamente há pessoas qualificadas para isso. Deveriam ter sido tomadas uma série de medidas que não foram tomadas.

Como ampliar a arrecadação sem aumentar impostos?
Começando pela própria eficiência na arrecadação. A prefeitura tem crédito a receber e outros mecanismos, que em outros momentos foram adotados. Já é necessário antecipar: se haverá recessão, vai haver queda de consumo, queda de atividade. Como se trabalha com a receita? AAdministração está maquiada. Agora, quem conhece os dados sabe que teremos um problema sério no lixo a partir de novembro/ dezembro, outro problema sério de transporte, com empresas que não recebem recursos, isso sem mencionar o subsídio.

Imaginando que esse quadro seja real, qual o plano de emergência?
Precisamos mudar o modelo de gestão da cidade. Assim
como gerações de campineiros fizeram, por exemplo, na década de 30, quando tivemos uma crise gravíssima do café, com desemprego exorbitante. Saímos de uma sociedade agrária e fomos parauma industrial. Este é um momento importante, de reconstituir uma nova maioria política que tenha clareza que o futuro está nos serviços. Até os anos 1990 Campinas sustentava as do entorno, mas hoje, a cidade virou uma centro de serviços.

Rose Guglielminetti

Sou comentarista política da Band-Campinas. Também sou colunista do programa "Bastidores do Poder", que vai ao ar todos os dias das 13h20 às 14h, na Band Campinas. Entre tantas editorias a de Política é a das que mais me atrai. E isso fez com que me enveredasse por esse caminho ao longo de minha carreira. Como repórter de Política sempre busquei oferecer notícias de bastidores do poder. E é isso que irei procurar fazer neste blog.

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